
Realizou-se ontem, no Clube dos Fenianos Portuenses, no Porto, o colóquio "A situação internacional e a luta pela paz", promovido pelo Conselho Português para a Paz e Cooperação. A iniciativa contou contou com a participação de José António Gomes, Luís Humberto Marcos, Vítor Pinto Basto e Ilda Figueiredo. Estiveram presentes cerca de 60 pessoas.
Leia algumas das intervenções:
Situação internacional e luta pela Paz: a Palestina
José António Gomes *
A situação vivida pelo povo da Palestina não é, creio eu, novidade para nenhum dos presentes 1. E outros, muito melhor do que eu, a têm descrito. Basta ver, por exemplo, um filme como Um Porco em Gaza (2011), de Sylvain Estibal. Ou ler as palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano, num artigo publicado em julho de 2014. Passo a citar quatro marcantes parágrafos desse texto:
«Para justificar-se, o terrorismo de Estado [de Israel] fabrica terroristas: semeia ódio e colhe álibis. Tudo indica que (…) a carnificina de Gaza [a que teve lugar no Verão de 2014 e] que, segundo os seus autores, quer acabar com os terroristas, conseguirá multiplicá-los. // Desde 1948, os palestinianos vivem condenados à humilhação perpétua. (…). Têm perdido a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes. Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está a ser castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída, desde que o Hamas ganhou legitimamente as eleições em 2006. (…) A democracia é um luxo que nem todos merecem. São filhos da impotência os rockets caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desleixada pontaria sobre as terras que tinham sido palestinianas e que a ocupação israelita usurpou. E o desespero, à orla da loucura suicida, é a mãe das ameaças que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há muitos anos, o direito à existência da Palestina. Já pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está a apagá-la do mapa. // Os colonos invadem, e, depois deles, os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o despojo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polónia para evitar que a Polónia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma das suas guerras defensivas, Israel engoliu outro pedaço da Palestina, e os almoços continuam. O repasto justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinianos à espreita. Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que escarnece das leis internacionais, e é também o único país que tem legalizado a tortura de prisioneiros. (…) O exército israelita, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis chamam-se danos colaterais, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. // Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são meninos. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica. E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinianos mortos, um israelita.» 2
Releve-se a longa citação, mas ela é oportuna, porque diz, de modo expressivo, quão tremenda é a situação vivida por este povo sob ocupação israelita, com um incremento de todas as formas de intimidação e das detenções, tanto em Gaza como na Cisjordânia e em Jerusalém Leste (há cerca de 6800 presos palestinos nas prisões de Israel!), «com a privação das liberdades, do acesso à água, da habitação, do trabalho, da livre circulação de pessoas e bens palestinos, (…) e com a segregação, a pobreza, as prisões arbitrárias, a situação dos refugiados», entre muitos outros aspectos da ocupação, como se pode ler em texto do Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) a propósito do seminário que teve lugar em 29 de Novembro, em Almada 3. Com esta actuação, visa-se, por um lado, o castigo colectivo de um povo que luta pelo direito inalienável a um estado independente, e, por outro, a obstrução de negociações e soluções pacíficas, para uma ocupação que dura há décadas.
Lembre-se que, desde os acordos de Oslo, em 1993, Israel roubou mais de 60% das terras que constituiriam o Estado da Palestina. Como salienta um comunicado do Conselho Mundial da Paz, datado de 16 de Julho de 2014, «a política agressiva do regime de ocupação israelita, o prosseguir da construção de colonatos na Cisjordânia e em Jerusalém, a demolição de casas, o continuar da construção do “muro de separação” na Cisjordânia (…) [têm recebido] todo o apoio dos Estados Unidos da América e da União Europeia, que equiparam a vítima ao agressor, numa criminosa cumplicidade com o lento genocídio do povo palestino.» 4
A agressão militar ilegal e ilegítima de Israel contra a Palestina, no Verão de 2014, mais uma de um longo rol – que provocou a morte de mais de 500 crianças, para não falar dos milhares de pessoas adultas vitimadas pelos bombardeamentos, da destruição de dezenas e dezenas de escolas, dos danos pesadíssimos em hospitais, infra-estruturas, milhares de habitações, locais religiosos, etc. – essa agressão não pode, contudo, ser dissociada da ofensiva do imperialismo, no contexto da agudização da crise estrutural do capitalismo. Uma ofensiva que intenta submeter os povos ao seu domínio e interesses e garantir em seu benefício a exploração de recursos naturais e o controlo de posições geoestratégicas. Como tem sido denunciado por forças progressistas, trata-se de uma operação que se estende do centro da Europa ao Extremo Oriente, da África à América Latina e que, no Médio Oriente, tem um dos seus principais alvos. Com tal operação se pretende impor um novo mapa político para a região, favorável aos propósitos do imperialismo, por via da desestabilização permanente. A acção de Israel potencia, assim, de modo particularmente grave, os perigos já existentes de uma confrontação militar generalizada de imprevisíveis contornos.
O facto de a Palestina ter ganho, em Novembro de 2012, o estatuto de «Estado observador não-membro» da ONU foi, no entanto, um passo positivo relevante. Outros passos têm sido dados, recentemente, por alguns estados europeus (Suécia, parlamentos da Grã-Bretanha, da Irlanda, da França, da Espanha), no sentido do reconhecimento do Estado da Palestina. E o próprio parlamento português, como é sabido, aprovou, em 12 de Dezembro de 2014, por maioria, uma recomendação para que o Governo o reconheça. O processo tem, por si só, um importante valor político e simbólico, mas não é suficiente. No ponto um desse projeto de resolução 5, o parlamento insta o Governo a «reconhecer, em coordenação com a União Europeia, o Estado da Palestina como um Estado independente e soberano, de acordo com os princípios estabelecidos pelo direito internacional». Este ponto teve os votos favoráveis do PSD, CDS-PP e PS, com excepção de alguns deputados das três bancadas, e abstiveram-se os deputados do PCP, do Bloco de Esquerda e dos Verdes, além de mais alguns deputados da maioria. Tanto o PCP como o BE e os Verdes viram rejeitadas as suas propostas, que recomendavam apenas o reconhecimento do Estado palestino, sem articulação com a União Europeia. PSD e CDS votaram contra e o PS absteve-se (com excepção de seis dos seus deputados que votaram a favor). O segundo ponto, que defende que o Governo deve, «em conjunto com os seus parceiros da União Europeia e internacionais, continuar a promover o diálogo e a coexistência pacífica de dois Estados democráticos, Israel e Palestina, pois só através de negociações será possível garantir a segurança e a paz naquela região», foi aprovado pela generalidade dos grupos parlamentares, contando com a abstenção de cinco deputados do PSD.
De acordo com um articulista, «seria [no entanto] um erro pensar que (…) [o reconhecimento do estado da Palestina] significaria por si só um avanço na luta do [seu] povo (…). Não. Significa tão somente mais um instrumento para, no plano do direito internacional, se prosseguir a luta pelos direitos nacionais do povo palestino à sua pátria, independente e soberana, ao seu Estado edificado nas fronteiras anteriores a 1967, com capital em Jerusalém Leste, e ao direito de regresso dos milhões de refugiados que foram expulsos das suas terras nas sucessivas ondas de guerra, anexação e ocupação de Israel.» 6
O caminho é pedregoso e hostil. A Resistência palestina não capitula, e combate, neste momento, a tentativa sionista, xenófoba e fascizante, do governo de Benjamin Netanyahu de impor a lei que aprofunda a discriminação dos cidadãos árabes de Israel, determinando o seu estado como a «terra dos judeus» e instituindo uma espécie de apartheid. Sobem de tom, por outro lado, as provocações e intimidações aos árabes em Jerusalém. E, num momento em que a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) conclui o processo de adesão ao Tribunal Penal Internacional e apresenta queixa contra Israel por genocídio, crimes de guerra e contra a humanidade, vê-se confrontada com as pressões contrárias e ameaças do governo norte-americano e do governo de Israel (neste caso retendo 106 milhões de euros devidos à ANP a título de impostos cobrados).
Os caminhos por onde passará a libertação do povo da Palestina implicam, em primeiro lugar, a unidade, neste momento problemática, das forças da Resistência (a Fatah, o Hamas e os movimentos e partidos de esquerda como a FPLP ou o PPP…). Implicam ainda, mais do que nunca, o reforço dos movimentos de solidariedade, na procura de solução justa, definitiva e duradoura. Implicam a intensificação da solidariedade política e a mobilização da opinião pública. Implicam uma pressão exercida sobre governos e instituições, no sentido do reconhecimento dos direitos deste massacrado povo. Implicam a exigência de uma actuação consequente, no plano internacional, por parte dos governos e das organizações internacionais. Implicam também atenção crescente à identidade cultural do povo da Palestina, às suas artes, à sua literatura, à sua cultura, enquanto expressões de Resistência e não só. E a solução do problema, como sabemos – nunca é de mais sublinhá-lo – passará sempre pelo fim da ocupação israelita e pela criação de um Estado palestino, com as fronteiras de 1967 e com capital em Jerusalém Leste.
* Professor do Ensino Superior, escritor e crítico literário.
Notas
1 Texto base da intervenção feita no colóquio «A Situação Internacional e a Luta pela Paz», organizado pelo Conselho Português para a Paz e a Cooperação, no Porto, no Clube dos Fenianos, a 24 de Janeiro de 2015.
2 «Já pouca Palestina resta. Pouco a pouco, Israel está a apagá-la do mapa», artigo publicado em Sin Permisso, traduzido por Mariana Carneiro e reproduzido em http://www.esquerda.net/…/eduardo-galeano-ja-pouca-pa…/33472 (20-07-2014).
3 Texto «Seminário Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino», disponível em http://www.cppc.pt/…/854-seminario-internacional-de-solidar… (Dezembro, 2014).
4 «Fim imediato ao massacre do povo Palestino!», disponível em http://www.cppc.pt/…/719-fim-imediato-ao-massacre-do-povo-p… (11-07-2014).
5 As citações que se seguem têm origem em texto noticioso da agência Lusa, datado de 12 de Dezembro de 2014.
6 Ângelo Alves, «Reconhecer a Palestina», Avante!, 11-12-2014, p. 3.
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A Situação internacional e a luta pela paz
int. de Vitor Pinto Basto
Vejamos o mundo como uma balança.
Nesse mundo-balança, segundo o relatório da organização humanitária Oxfam (divulgado recentemente no Fórum Económico Mundial de Davos), um dos pratos é ocupado por 1% da população do mundo que detém ½ da riqueza global. Quer isto dizer que no outro prato estarão os outros 99% da população a viver da restante metade. Perante tal cenário de tão pouco para tanta gente, deveria haver indignação global. Mas assistimos, isso sim, a uma resignação (quase) global perante tão grande injustiça.
Poderá parecer absurdo relacionar o que nos trouxe aqui – a matança do Charlie Hebdo (CH) – com esse mundo-balança em que num prato estão os ricos e no outro os pobres. Mas eu gosto de interligar vários temas para a esclarecedora síntese e saber que tudo está relacionado. E sabermos todos nós que quando há grande injustiça social, facilmente surgem movimentos radicais como o ignóbil terrorismo.
Centremo-nos então na revoltante matança Carlie Hebdo, sua natureza e suas consequências. E qual a sua relação entre o jornalismo e a liberdade de expressão.
Como jornalista, reconheço que exerço a minha profissão tentado sempre aperceber-me da importância dos meus limites. Estes, estão condizentes com a relação entre mim e o outro, que nunca vejo como inimigo. Para estabelecer fronteiras e aumentar a transparência do exercício da profissão de informar, os jornalistas têm o seu código deontológico. Este, em termos gerais, impõe-nos o cuidado de sermos equidistantes, isentos e tentar ouvir sempre o visado. Quando há falhas nesta conduta, os tribunais existem para tentar aplicar a lei e assim garantir alguma justiça.
No caso Charlie Hebdo, a primeira análise a retirar será a de que o autor daquela matança agiu como se tivesse a liberdade de defender o alvo da mensagem (no caso: desenhos satíricos sobre Maomé) matando o emissor. Mas a verdade é que ninguém tem o direito de matar. Ninguém tem o direito de usar o poder da bala. Ninguém tem o direito de matar alguém por causa de uma ideia, de um desenho, de uma notícia. Quando alguém mata em nome de um suposto grupo organizado com o objetivo de instalar a violência com base na defesa de uma ideia em detrimento de outra ideia, defendendo uma raça ou religião, ou sistema social, depressa se cria a barbárie.
Para lutar contra o bárbaro que num prato do mundo-balança instala o terror, seja com o poder das armas seja com o do dinheiro, devemos colocar no outro prato a força da Justiça. No imediato, aplicar a lei, tratando terroristas como criminosos, e vigiar atentamente o grupo a que diz m pertencer; e, a curto e a médio-prazo, aplicar benfazejas políticas anti-marginalização das gentes onde nasceu essa espécie de soldados do terror e mundanizá-las. O humano civilizado não pode querer humanos aterrorizados. O humano civilizado também não devia aceitar tanta concentração da riqueza num prato e tanta miséria no outro.
Por isso, sabendo que no mundo-balança em que vivemos facilmente alguns se colocam no prato do “je suis Charlie” e no outro “eu não sou Charlie”, interessaria identificar o problema. Onde estava a moda do “Eu sou Charlie” quando em dezembro houve a matança de cerca de 2000 pessoas (1500 civis, dos quais 500 crianmas) no conflito israelo-palestiniano, onde foram cidades dizimadas; onde estavam quando noutras zonas do Globo populações inteiras são dizimadas, tanto em África como na Índia, por radicais ditos religiosos e se aproveitam da Religião (que pensadores exímios já classificaram como “ópio do povo”)? Onde estavam tantos charleis perante tantas matanças?
Para tentar a resposta a esta e outras mundividentes perguntas, reconhecendo a metodologia helegeliana de encontrar a síntese, começo por analisar os problemas aplicando o ensinamento dado por Karl Yaspers no livrinho “Iniciação Filosófica”:
“Princípio, porém, é algo diferente de origem”.
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Nessa perspetiva, voltemos ao princípio do tema: a matança do Charlie Hebdo e a Liberdade de Expressão.
Charlie Hebdo é um jornal satírico, com um humor corrosivo que afronta sistematicamente a chamada Liberdade de Imprensa. Esta, como se sabe, embora a natureza humana tenha igual fundamento substancial, não é igual em todos os países. A matança do Charlie Hebdo existiu porque ainda há mundos (sejam sociais, económicos ou religiosos) onde será proibido rir dos seus próprios defeitos. E ganha dimensão global por ter sido cometida por alegados apologistas de um chamado Estado Islâmico.
A luta pela Liberdade de Imprensa merece todo os respeito e os números são eloquentes porque ilustram mortífero espanto: em 2013, foram assassinados 108 jornalistas, segundo números da Federação Internacional de Jornalistas. Ásia/Pacífico com 31 assassínios, Médio Oriente e mundo árabe com 29 homicídios e América Latina com 20 jornalistas asasinados, lideram a lista; na Europa, foram três os jornalistas assassinados nesse ano. Síria, Iraque, Paquistão, Filipinas, Índia, Somália e Egito, foram os países onde mais matança houve de jornalistas. Só no México, desde o ano 2000 foram assassinados 102 jornalistas.
Matar um jornalista não faz sentido, mesmo que ele desenhe, por exemplo, um deus a ter sexo com uma cabra. Não faz sentido. Claro que alguns me poderiam perguntar: mas faz sentido desenhar um deus a ter sexo com uma cabra? E qual a eficácia social desse desenho? Responderia que num mundo da sátira, a ausência de sentido será o seu fermento. E se o aproveitamento do non sense chegar ao insulto ou a outras consequências relacionadas com a liberdade de imprensa temos os tribunais para resolver essas quezílias.
E foi isso, aliás, foi o recurso aos tribunais que ocorreu num caso que envolveu o próprio Charlie Hebdo, quando despediu Maurice Sinet, que recebeu em 1959 o Grande Prémio de Humor Negro, em França. Em 2008, Sinet escreveu uma crónica antissemita; a comunidade judaica não gostou, Maurice foi despedido, recorreu dessa decisão para o tribunal e foi indemnizado pelo jornal CH. O seu despedimento deveria, claro, também fazer refletir os donos desse jornal, então permeáveis à pressão judaica, sobre os limites da liberdade de imprensa, que não pode ter as portas abertas e ser utilizada apenas para um dos lados… porque isso fortalece a injustiça e o maniqueísmo.
O direito de informar deve ser defendido, sempre. A liberdade de expressão deve ser praticada e defendida. Não há liberdade de expressão quando se faz a apologia do ódio, se incentiva ao racismo e ao terror e não se defende o direito humano de ter uma vida sã e livre de preconceitos.
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Vamos à minha análise sobre a origem do tema que nos trouxe aqui na forma de problema:
Para o mundo dito ocidental, a sátira, sendo respeitosa e bem feita, é aceite como piada de Carnaval em que, diz é tradição dizer-se, “nada se leva a mal”. Pelos vistos, para alguma gente de outros mundos, ela não é interpretada assim, sobretudo quando atacam alguns valores ditos sagrados.
Para mim, aplicando ao problema a minha visão de jornalista, uma espécie de historiador imediatista do nosso quotidiano, a matança do Charlie Hebdo trouxe-me duas estranhas sensações:
- a de que queria justiça imediata para aquele assassino que descarregou a arma na cabeça do polícia indefeso caído naquele passeio parisiense.
- a de que queria encontrar uma explicação para o que ia na cabeça daquele assassino que com tanta crueldade tirou a vida a um seu semelhante (por ironia, também de descendência árabe e/ou muçulmana).
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E aqui volto à noção que alguns têm do maniqueísta mundo-balança. Em que a loucura comanda a vida quando freneticamente um dos pratos, e é quase sempre o dos fortes, se equilibra à custa do prato dos fracos. Esta noção de mundo-balança desequilibrado cria doenças (fanatismo) e doentes (fanáticos). Mas estes são apenas o princípio do problema. A sua origem, porém, é mais problemática e tem causas que fazem da vida um estranho vulcão. Estas causas, se irrompem, lançam lava incandescente como a que matou os dez jornalistas e os dois polícias no caso do Charlie Hebdo - com consequências mais mortais nas horas seguintes em França (com vinte mortos - dez jornalistas, três polícias, três sequestradores, e quatro sequestrados).
O que poderá ir na cabeça daquele homicida, dito soldado de um exército de islamitas radicais e, por isso, com atitudes terroristas (e aqui quero aplicar a palavra terrorista como aquele que espalha terror e mata inocentes), só poderá ser ignorância.
Logo a seguir à matança do Charlie Hbdo, Ravina Shamdasani, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, generalizou o que poderá estar na cabeça de quem cometeu tais crimes em Paris e se diz ser um jihadista de um alegado Estado Islâmico: “desprezo monstruoso pela vida humana”.
Shamdasani toca ainda num ponto fundamental para caraterizar quem, à custa de uma alegada guerra religiosa, causa terror, e diz que nas primeiras duas semanas deste ano, três advogadas e mais mulheres foram executadas por “um tribunal islâmico”. Acentua: “As mulheres que trabalham, instruídas e especialmente as que concorrem a postos da função pública parecem particularmente vulneráveis”. E as outras mulheres, as menos esclarecidas, como as que não se conseguem libertar da agrilhoante burca, como se sentem?
O que o porta-voz da ACNUR disse com perturbante evidência ilustra bem como a mulher continua a ser tão maltratada. Porém, se formos mais abrangentes, facilmente reparamos que a mulher, ao longo da história, tal como a criança, sempre foi o elo mais fraco de quem quer, pela força, instalar o medo. Mas a História também nos diz que quando a mulher se liberta, o mundo avança para a modernidade. Por isso, toco aqui já no que para mim poderá ser uma chave para começar a resolver o problema: acabe-se com a miséria e com a ignorância, dignifique-se o trabalho e dêem-se garantias às mulheres para elas conquistarem direitos iguais aos dos homens.
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Dirão:
Mas porque é que este jornalista põe o mundo como uma desequilibrada balança, mistura ricos com pobres, árabes e luta das mulheres, para falar da matança do Charlie Hebdo? E da segurança no Mundo.
Respondo: por considerar que está tudo ligado.
Vejamos:
- a quem interessa uma alegada guerra entre ocidentais e árabes radicais, quando no chamado Ocidente (sobretudo o Europeu) instalaram um sistema chamado Austeridade que elimina quase todas as conquistas feitas durante a Democracia?
- a quem interessa a manutenção deste “clima de guerra civil de baixa intensidade”, como definiu recentemente Boaventura Sousa Santos que, num artigo publicado recentemente, disse o que parece óbvio a qualquer pessoa esclarecida: que o dito Ocidente também tem culpas na maneira como lidou com o Mundo Árabe.
- de onde vêm os chamados jihadistas, ditos gerreiros espanhados pelo mundo para defender o chamado Estado Islâmico?
- Repito: qual a verdadeira origem deste problema?
Boaventura Sousa Santos (BSS), diretor do centro de estudos Sociais da Universidade de Coimbra, aponta algumas respostas. Outros, também. BSS é claro ao referir que a guerra dos EUA e seus aliados, desde o 11 de Setembro, contra o terrorismo “causou a morte de milhares de civis inocentes (quase todos muçulmanos)”. Não disse nessa crónica mas sempre é bom recordar que a guerra do Iraque começou com primado falso (os iraquianos, afinal, não tinham armas de destruição maciça).
Outra explicação possível para o problema desta “guerra civil de baixa intensidade”, mas que causará terror no chamado bem-estar ocidental, foi dada esta semana pelo primeiro-ministro francês. Manuel Valls terá chocado alguma parte da sociedade francesa falando do evidente (às vezes, falar do óbvio é mais difícil). Disse: os ataques “dos últimos dias sublinham muitos males que temos no nosso país ou os desafios que temos que superar. Impôs-se”, acrescentou, “um apartheid territorial, social e étnico no nosso país”.
Este será, pois, um dos pontos fundamentais de uma parte do problema que alimenta atitudes radicais e terroristas: o da exclusão social, que cria miséria, afastamento dos valores da mundanização, cria marginais.
Valls explicou o que não se pode esconder, que a juventude muçulmana dos subúrbios das grandes cidades francesas sente-se excluída “por não ter bom nome de família, a cor certa da pele, ou porque são mulheres”.
Claro que a extrema-direita logo protestou, por não querer aceitar a evidência social, provavelmente por ter no seu ADN a repulsa contra pessoas de outras raças, outros países, outras nações, e quererá políticas que fechem fronteiras a estrangeiros e criar países fechados a outros mundos.
Valls pôs o dedo no que poderá vir a ser uma ferida de onde do desânimo podem sair soldados para a defesa de violenta Jihad islâmica. Islamitas violentos que, como disse Álvaro Vasconcelos, “são uma ínfima minoria, desenraizados da comunidade muçulmana, muitas vezes sem emprego e de bairros pobres periféricos, com um sistema escolar deficiente… endoutrinados por uma visão deturpada do Islão”.
Visão deturpada do Islão aproveitada por alguém que aparece sempre em tom ameaçador e em nome da Al Qaida veio reinvidicar os atentados de Paris como “vingança para o mensageiro de Alá”.
Reinvindicação essa que o próprio Imã da Mesquita de Lisboa logo contesta: “Não compreendo esses atos. O Islão ensina a boa convivência e nós temos de respeitar as pessoas”, disse Sheick Munir.
Conclusão
(porque o tempo é curto e o tema tão abrangente que não cabe nestas minhas páginas)
Ao jornalista cabe não ser apenas o emissor de terminada mensagem. Se se ficar por aí, facilmente é utilizado como elemento de determinada propaganda.
Os jornalistas do Charlie Hebdo, com todos os defeitos e todas as críticas que se lhe possam fazer, entre elas a de algum mau gosto em determinadas sátiras, foram assassinados porque foram inconvenientes. Foram vítimas de quem se viu apoquentado por essa inconveniência satírica. E quem assim fica incomodado ao ponto de matar outro ser humano por causa de um desenho, já se sabe, não sabe viver em democracia.